10.4.07

As histórias lúdicas e lúbricas de “João Gramático”

Conheci o professor de Jornalismo, da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo, João Carlos Tiburski, em 2000, logo que entrei na faculdade de Jornalismo. Primeiro o achei meio esquisito, depois fui fazer estágio e ele era meu chefe. E assim se passaram quase oito anos, desenvolvemos uma verdadeira amizade e continuei convivendo com essa figura. Pra mim ele é folclórico: inteligentíssimo, culto, humilde, brincalhão e, as vezes, brabo. Muito brabo. O Tiba, como é conhecido, é, na verdade, o maior contador de histórias que já conheci na vida. A cada conversa que tenho, descubro uma coisa nova. Na entrevista de hoje, eu já sabia que ele alfabetizou 40 prostitutas, mas não sabia que ele alfabetizou, também, um “puto”, como ele mesmo disse. Eu também não sabia da história do estivador, nem da fazenda em Vacaria, nem do tal teço-teco. Pra saber, só lendo esta entrevista honesta e engraçada do cara que foi chamado pelos amigos da fazenda “Sítio Montes Claros” de “João Gramático”.


Como foi a tua infância?
(Dá uma tragada no famoso cachimbo) A infância? (dá uma tossida).... Bom eu nasci em Erechim e me criei em Cotegipe. Até os 8 ou 9 anos, nas terras dos meus avós, em Barão do Cotegipe. Trabal
hei na Colônia. Estudei lá e fui crismado lá.

Tu fizeste todas estas “paradas” de religião? Comunhão, Crisma, essas coisas?
Tudo! Polonês, né, com os avós poloneses, morando na colônia... e... então eu trabalhava na roça. Trabalhei até uns 9 anos na roça e depois fui a Erechim morar com meus pais. A minha infância mesmo foi com animais: vacas, porcos, tirando leite, e naquele tempo criança não usava chinelo. Tinha umas alpargatas e um chinelo de couro. Mas a gente não usava no dia-a-dia. Quando eu tinha 5 anos, eu lembr
o que a gente acordava, naqueles invernos antigos e rigorosos, quando a neve branqueava e congelava açudes, e eu ficava de pé no chão e de calça curta.

No inverno também?
Siiiim, piá não usava calça comprida. Nem calça comprida e nem bolso na camisa, que e
ra pra não fumar. E bolso era sinônimo de fumar. (acende de novo o cachimbo).

E Tiba, daí tu não usavas uns meiões para não passar o frio? Você ficava com as canelas de fora?
O que nos protegia é que quando a gente acordava de manhã, a avó, que falava muito pouco português, fazia um café passado preto, uns cafés mara
vilhosos, porque não existia nescafé, e passava o café preto. A gente tomava antes de sair pra buscar as vacas e guardar os terneiros, então antes de buscar as vacas e os terneiros, a gente tomava uma xícara de café preto bem quente com graspa. E aí não pegava gripe e nada. Porque meu avô fazia vinho e graspa, tinha alambique. E eu pisei em muito vinho.

Agora eu já descobri de onde vem essa tua paixão pelo álcool....
Siiimm..... essa paixão pelo vinho continua até hoje, muito vinho, pisando nos mastéis, lavava os pés bem
desencardido e ficava lá de calça curta e pisoteando, andando ao redor, dentro do mastel. Isso dos 4 anos até os 9. Nos dias de chuva a gente ia pro galpão, meu avô também fazia fumo em rolo. A gente ia escolher palha, as melhores palhas e também descascávamos os milhos. Então nos dias de chuva ficávamos no galpão, selecionando a palha do milho pro meu avô e pros tios fumarem, e trabalhando na ração para os porcos comerem. Mais tarde, na lavoura, andando muito, porque naquela época não existia trator, lavrei muito com boi e capinei com cavalo. A gente gastava e queimava a bunda de tanto andar à cavalo. Porque daí tinha que ir um pequeno. Os primos maiores iam na frente, tocando o arado.

Tu se criaste com os primos?
Tinha os primos, mas eu me criei com as primas.... muito namoro!

Aaaaahhhhhhhh!!!! “Tu pegou” muito tuas primas?
Minha iniciação foi com primas (risos). E foi nos galpões em cima dos milhos, ou então naqueles montes, sabe onde se colocavam os trigos? E eu tinha umas 5 primas. Então quando tu tirava o trigo, a gente botava uma haste de pinheiro e depois fazia as montanhas de palha de trigo. E ali a gent
e fazia cavernas e de noite era o bordelzinho campeiro com as primas... (risos)

Eu ia te pedir como foi tua adolescência, se tu havias “comido”, literalmente, muitas mulheres. Mas então tu começou mais cedo?

Sim. Eram brincadeiras de primo e prima. Isso com 7 anos.

Com 7 anos tu já bombava????
Já!!! (e acende o cachimbão de nov
o)
Tá, mas então conta um pouco da tua adolescência. Como foi?
Passei minha adolescência em Erechim. Na cidade. Naquele tempo tinha exame de admissão no ginásio, que era um tipo de pré-vestibular. Eu passei e entrei na Escola Técnica Salvador C
aruso MCdonald. Eu tinha turno integral. Tinha essas partes teóricas e de tarde eu fiz 4 anos de mecânica e desenho técnico. Na verdade eu tenho uma formação técnica. Trabalhei de mecânico na Unisul, na Autolândia, na fábrica de gaitas Marinel, trabalhei como padeiro... Isso tudo até uns 16 anos. Eu sai da Padaria Popular e como eu lia muito, já tinha lido os clássicos - eu tinha um irmão que fazia filosofia na UFRGS e ele me mandava livros e tal - eu sempre lia muito. Já tinha lido Balzac, Dostoievski, Nietzsche, e o Dom Quixote sempre foi o grande livro da minha vida. Então eu sempre lia muito e já escrevia. Inclusive ganhei concurso de redação pela Caixa (Econômica Federal), ganhei uma caderneta de poupança e um vôo de teço-teco pelo primeiro lugar (risos). Isso quando eu tava nesse ginásio técnico. Depois eu fiz o científico. Aí já trabalhava na livraria ABC, e eu cuidava dos livros e fazia todo o serviço, era motorista, viajava aqui pra Passo Fundo, e naquela época eu nem tinha carteira. Dirigia uma Kombi e vinha na famosa editora FTD, a gente vinha buscar cargas de livros e isso era num período de início de aula; toda semana tinha que vir buscar. Então eu me dedicava mais nessa parte de livros. Comprava os livros e lia e eu era o cara que mais entendia de livros na livraria. Os escritores e as pessoas que liam – eu convivi muito, uns dois anos, quase três, com o escritor Gladistone Osório Mársico que era nosso freguês, também o Carlos Nejar. Naquele tempo ele era promotor em Erechim. Vendi muito livro pro Carlos Nejar. E a gente conversava.

Cheguei a ter um programa na rádio de Erechim, um programa que eu fazia, sobre livros. E assim como hoje eu vou semanalmente pro Capingüi, naquela época eu ia semanalmente pra Cotegipe. Meus avós tinham um pequeno moinho, de milho e trigo. Até hoje tem em Cotegipe o famoso balneário dos Males, que a minha mãe era de sobrenome Males. Meus avós descendentes de pais eram poloneses. E eu ajudei a construir todos aqueles açudes com pedras. A gente ia pra lavoura com os carroções, e na volta trazíamos as pedras. E nos fins de semana a gente fez uma “muralha da china”, que é um açude imenso com pedras ao redor. Isso eu ajudei a fazer na minha adolescência. Ás vezes eu ia pra Cotegipe até a pé, porque não tinha dinheiro. Eu ia visitar a família e ainda não tinha bicicleta. Ia a pé de Erechim pra Cotegipe. Dá 9 quilômetros pra ir e 9 pra voltar. Com chuva ou sem chuva.

Quando tu saíste de Erechim?
Saí em 1968 de Erechim. Eu tinha feito 18 anos. Saí e fui fazer vestibular em Porto Alegre. Eu tinha que ir servir também (no exérc
ito). Mas eu não queria servir e não servi. Eu mandei uma carta para o Enaudy Troglio da livraria, que conhecia um capitão e tal. Aí eu não servi, fiz vestibular, e o primeiro que eu fiz foi pra Sociologia. Em 1968, bem naquela fase violenta, né. Isso em Porto Alegre. Passei no vestibular, mas deu um monte de problemas e muita gente fugiu.

Por problema político.
É. E eu morava na famosa casa dos estudantes, ali na Riachuelo com a Borges, a Aparício Cora de Almeida. Morei anos lá (depois que eu voltei). Foi a casa mais famosa de lá, tem muitas histórias. D
á 10 dedos de histórias loucas e de loucos. Teve de tudo naquela casa. Aí eu estudei uns 3 meses antes de sair. Mas antes eu trabalhei de estivador. Porque eu era grande e forte e camponês, então arrumei um emprego em Porto Alegre – porque morar nessa casa era só pra gente bem pobre – e trabalhei uns meses no porto do Guaíba, coqueando farelo, sal, descendo pelas rampas. Era uma fila de gente trabalhando, que carregava e descarregava do navio com tudo na cabeça. Ali eu fiquei uns 3 meses, até passar no concurso do Banco Nacional. Fiquei um tempo no banco trabalhando. Mas isso de estivador foi logo com 18 anos. Mas aí com a confusão de 68 cada um foi pra um lado e eu fui pra Vacaria. Eu ia pra São Paulo, mas aí tinha um amigo meu Eodóxo Teodoro dos Santos, que fazia arquitetura, e ele disse “Tiburski, por que tu não fica aqui perto? Vai a Vacaria que o meu tio...” Porque o Cesóstres Campos (o tio do amigo) era médico e dono de tabelionato. O pai do Cesóstres tinha sido dono e passou pra ele. E o Cesóstres não exercia a medicina porque o tabelionato dava mais. E (tosse) daí eu fui pra lá, numa fazenda, só que chamavam de “Sítio Montes Claros”. Que fica bem na frente do famoso rodeio crioulo de Vacaria. Ali tem duas grandes fazendas, a “Montes Claros” e a “Firmino Branco”. Ali eu fiquei 2 anos. Saí de Porto Alegre porque a perseguição era muito grande, principalmente na Aparício Cora de Almeida.

Tu chegaste a se envolver diretamente com a ditadura (com militância)?
Eu fiquei pouco ali em porto Alegre e larguei. E outros largaram também. Eu participei muito em Erechim. Participei no primeiro e no segundo
grau do Grêmio Estudantil.

E na fazenda que eu fui (ao sair de Porto Alegre) só morava uma velhinha bugra chamada “Nhá Bandina” e a filha dela Rosa, que tinha uns 14 anos e moravam só as duas, com o cunhado do Cesóstres, que era viúvo. Aí como o nome dele era João também, começaram a me chamar de “João Gramático” e ele era o “João Prático”. Eu fiquei lá administrando e tirando leite, e administrando e levando o leite de carrocinha nos dias que estavam bons. Distribuía em restaurantes, na Madel, na saída de Vacaria, antes da Polícia Federal e levava e trazia as coisas. Quando o tempo tava muito ruim eu ia de Kombi. E o Cesóstres teve uma biblioteca muito grande, que era do pai dele. Eu organizei tudo, tava tudo abandonado, encaixotado. Eu arrumei tudo e fiz uma baita biblioteca lá fora. Aí as vezes eu ia viajar de Kombi, registrar em cartório, pegar papéis nos tabelionatos. E é ali que eu tenho uma experiência fantástica como professor. Não foi na UFRGS, nem na UPF, nem na Unijuí, que eu trabalhei, mas foi lá que tive esta experiência (tosse característica). Um tal de pastor Ernani – naquele tempo foi lançado o Mobral – e o pastor Ernani que queria caçar em Montes Claros – ele era pastor e trabalhava na Polícia Federal – e um dia ele disse “João Gramático, tu não quer participar de um projeto?” eu disse “qual é o projeto?” “O projeto é alfabetizar as prostitutas da zona do meretrício de Vacaria na saída pra Lagoa”. Eu disse “Topo”. E ele disse “A polícia te pega aqui” – porque a polícia era na frente, numa estrada de chão – então ele falou “a polícia te pega e às 5 e meia te deixa aqui”. E eu trabalhei um ano. Alfabetizei 40 prostitutas e um puto, o famoso Julinho. Que ainda esses dias eu soube que tá vivo. Deve estar muito velho, porque eu tinha 19 anos, ia fazer 20....(hoje o Jacaré tem 58). E aí eu volto a Porto Alegre. Volto e entrei em Letras.

Mudou de idéia?
Mudei de idéia! Por causa da Literatura, né. Aí fiz Letras e Jornalismo. E depois o Mestrado eu fiz na UFRGS.

Em quais jornais tu trabalhaste?
Eu trabalhei no Correio (do povo) com o Gastal, no segundo caderno, que era suplemento cultural. Era o caderno de sábado...

Mas logo que tu entraste na faculdade começaste a trabalhar em jornal?
Não... é que eu escrevia. E naquele tempo quem mais trabalhava nessa área eram alunos de Letras. E eu escrevia regularmente no Correio e eles publicavam. E lá eu trabalhei com o Quintana, no “caderno H”, com o Jaime Cobstein no “Letras e livros”. Ele foi meu editor.


(acende o cachimbo de novo e tosse).


E trabalhei também com
o resenhista, eu e o (Sérgio) Capparelli, lá no Coojornal. Lá eu trabalhava e fazia parte do “Leitura” (editoria), que eram as últimas páginas do jornal. E éramos remunerados pra isso.


E tem o Pasquim aqui do Sul!
Sim, trabalhei no Pasquim Sul (tosse), com o Carlos Feio, foi ele que me colocou pra escrever. E o Carlos Feio era um português de Portugal, acho que tá vivo ainda (tosse - pigarro). E depois eu abri meu escritório de produção gráfica.
Aí eu já tava divorciado.

Quantas vezes tu foste casado?
Casado, casado n
o papel, uma. Namoro eu não sei quantos, isso não dá pra contar. E de morar junto eu morei com essa que eu casei, depois com a Dêla – que eu tenho uma filha registrada, que é a Júlia, mora em Cruz Alta – e no primeiro casamento, com a Maria Luisa eu tenho 3 filhos. Depois eu vivi seis anos com a Nara Trindade, que se tornou minha sócia – nós abrimos juntos o escritório e depois nos separamos. Era T&T, Trindade & Tiburski. Depois que ela saiu eu e os meus filhos botamos Tiburski & Tiburski. E com os meus filhos a gente fez muito jornal. Criamos o jornal “A Fonte”, de Santo Antônio da Patrulha, que era semanal. O Tibinha, que é o mais velho dos meus filhos foi administrar lá. “A Fonte” por causa da famosa fonte imperial que tem lá, né. Lá trabalhou comigo e se iniciou o Miguelito Medeiros. Ele aprendeu comigo. Acho que hoje tá na Gaúcha. Grande repórter! (dá uma grande tossida). Daí em Porto Alegre eu também trabalhei como editor de livros do IEL (Instituto Estadual do Livro). Até há pouco tempo. Eu tenho muitos livros do estado, pelo MARGS (Museu de Artes do Rio Grande do Sul) e pelo Museu de Comunicação. Entrei no Estado em 02 de agosto de 1972. Agora dia 02 de agosto eu faço 35 anos de concursado.

Ai que maravilha!!!
Agora eu pretendo me aposentar. Tô com 58...

Será que vão abrir concurso?

(risos)...

Continuando...
...Daí com o Carlos Appel – eles t
inham o tradicional cursinho universitário que era o Unificado, dos irmãos Gonçalves, o Sérgio e o outro, e lá tinha os melhores cursos. E eu criei um jornal pra eles. Fiz o “Terceira Margem”, que foi um jornal que marcou uma época. E um dia o CPERGS faz uma greve e nós publicamos – e nós só publicávamos jornal com opinião. Chamávamos de jornal de “contra-mídia”, no sentido exatamente da idéia do ombudsman, de fazer uma “crítica da mídia”. Esse era o projeto. Eu era dono do jornal, mas ele era bancado pelo Unificado, e era basicamente distribuído para os alunos – e nós publicamos uma matéria contra o CPERGS, assinado não sei por quem, um cara muito louco, e o CPERGS foi pra cima do Universitário e aí eles romperam o contrato com a gente. Eu fiquei com o jornal mais uns dois anos, com banca e assinatura, ali na Praça da Alfândega, no edifício do Relógio. Lá nós tínhamos 3 salas. E éramos os únicos que tínhamos banheiro interno. Os outros até hoje tem banheiro no corredor. E ali eu dormia, nos tempos que eu tava divorciado, separado, não tava morando com mulher ou mesmo virando noite trabalhando, aí eu dormia ali mesmo, no sofá, tinha geladeira, tinha tudo, fogãozinho a gás. Uma redação em casa. Quando eu perdia a mulher eu ia pra redação. (risos)

E como foi aquela história que uma vez tu saiu bravo com uma mulher, por causa de um tamanco, e aí tu derrubou uma carrocinha de Cachorro-quente?
Ah..... ah, essa... tu vê como é a memória né, o
inconsciente. Uma das mulheres que eu vi mais tempo depois foi a Niza (que era a quarta mulher). Ela foi minha aluna.

Foi a quarta?
Sim, porque eu me separei da Nara pra ficar com ela. Ela foi minha aluna na Unijuí. Ela era casada e novinha. Eu dava aula de Literatura Hispano-americana, entre outras matérias – eu nem dava jornalismo ainda porque não tinha. Naquela época era FIDENE (o nome da universidade), que os caras chamavam de FUDENE (risos). Tinham os bailões lá na sede antiga, e enchia de viajantes e caçavam as mulheres. E elas iam... Então saiam pros motéis. Por isso era a famosa FUDENE (risos). Daí eu fiquei quase 8 anos com a Niza (a Niza se separou do marido para ficar com o Tiba). E ela tem uma
filha do primeiro casamento, a Gerusa, que se criou com a gente. Inclusive quando eu vim mostrar o currículo pra Sônia aqui em Passo Fundo - eu já dava aula na UFRGS – a Niza veio junto. E aí também tem o Jornal de Nova Brécia que eu criei. Eu ainda sou o editor, ainda assino. Fiquei uns 10 anos no jornal de Nova Brécia, e aí vendi pra uma funcionária que fez jornalismo.

(luta para acender o cachimbo)

Então... no dia que eu vim a Niza veio junto. Só que nossa relação... ela era 16, 17 anos mais nova do que eu; e ela alegava sempre que tinha muitos problemas de tensão pré-menstrual. Então uma vez por mês, por uma semana, era uma loucura, sempre, sempre!

(luta de novo com o isqueiro para acender o cachimbo).

E eu comecei a trabalhar em Passo Fundo e ela enlouquecia. Aí eu ficava aqui, vinha domingo de noite e saía quinta às 02 da manhã. Chegava lá e trabalhava quinta, sexta e sábado de manhã na URGS e no IEL. Depois ia pro sítio em Butiá e domingo de noite pegava o ônibus e voltava pra Passo Fundo. Chegava aqui à meia noite e ia direto pro Boka comer e tomar trago. Morei quase 3 anos no Da Vinci, que ficava do lado do Boka. Aí voltava pra lá e sempre tinha briga e ciúmes e tal e no fim, depois que eu comecei a vir pra Passo Fundo a coisa piorou, piorou e a gente se separou duas vezes. Eu saí do apartamento e deixei tudo. Saí só com minhas roupas e livros. Aí eu já tava separado e a gente se encontrava e tal (acende o cachimbo) e eu morava na Demétrio – porque o escritório era ali na Bento Martins – e um sábado de tarde nós estávamos brigados e tal, e ela me ligou pra ir lá. Eu já tinha tomado uns tragos fortes, e andava sempre de regata, bermuda e chinelo. Ela morava na Riachuelo, há umas três quadras. Cheguei lá, ela queria que eu largasse o apartamento e voltasse a morar com ela. Ali na Riachuelo perto da Biblioteca... Eu trabalhei na Biblioteca também.

Ah é? Na biblioteca pública?
Na biblioteca pública! Trabalhei lá no setor dos jornais embaixo. Trabalhava só no sábado e domingo.

Que maravilha!
Teve um período que eu saí do IEL e fui pra Biblioteca pra poder atender esses outros negóci
os. Um dia uma poeta que era minha amante, ...a gente transava lá embaixo, e ela me esquece a calcinha pendurada!

Eu não acredito!!! (risos)
Na segunda-feira a diretora me chama! Bá, deu um estouro aquilo lá! Porque quem tava lá era eu, né. Mas eu já escolhi a
quele lugar porque é o setor mais lúdico, mais lúgubre, é o mundo de Dostoievski.

Um submundo!
Um submundo (confirmando com ênfase!) lá embaixo! E eu gostava e ficava ali. E o pessoal não podia entrar. Então só entravam as minhas gatas... Mas aí a história da Niza... Ela queria que eu morasse lá e eu disse “não, não vai dar”. Era a terceira vez que eu me separava e ia alugar apartamento. Aí ela tava eu acho naquela semana fatídica. E ela me arranhava. Eu sempre vinha arranhado pra UPF. Sempre! Eu não me lembro se tu pegou essa época?

Acho que te conheci quando tu estava se separando.
É... Então eu vivia arranhado. Mas eu nunca bati nela. Só me defendia (acende o cachimbo). E ela começou a discutir, discutir, eu disse “ó, tô indo embora, tô voltando pra casa”. E eu fumava cinco carteiras de Hollywood por dia, mais o cachimbo. Fumava tipo louco. E eu fui sair...

Com quantos anos tu começou a fumar?
Ah, com uns 7, 8 anos fumava os palheiros do vô, já. E depois continuei (risos). Aí fui sai
ndo da casa – e eu tinha as chaves, né; ela tinha as chaves do meu apartamento e eu tinha as chaves do dela – e eu vou saindo e ela se agarra em mim e eu disse “me larga, eu vou embora, eu não vou passar por tudo que já passei”. E ela tinha um sapato forte, um baita dum salto e ela pegou aquele salto e me acertou em cheio (coloca a mão no lado direito da face). Preteou! Aí eu me virei e dei um tapão (ele nunca tinha batido em ninguém. A raiva o “possuiu”). Literalmente ela voou. Ela era “mignonzinha” e ela voou, assim, Chiiiiiii (imita o barulho de avião). Foi a primeira vez que eu vi uma mulher voando (risos). E aquele sapato eu peguei e fui embora com o sapato. E quando eu tô voltando pra casa com o sapato, saí na Borges, passei por baixo do viaduto e depois tem ainda hoje aquelas carrocinhas de cachorro-quente. E eu vinha fumando, mas brabo! Com o rosto inchado. E brabo! E tava no trago, né. E veio um negrão, e nós estávamos bem na esquina, e eu estava fumando. Ele disse “Me dá um cigarro”. Eu disse “Não, eu não fumo”. Mas eu tava fumando! E o cara quis me botar a mão – e ele também tava bêbado – era um baita homem e eu peguei com as duas mãos e empurrei ele. Ele saiu tropeçando e caiu por cima da carrocinha. Virou tudo! Aqueles molhos, lingüiça, pão (pigarreia), bom eu conhecia o dono, porque passava sempre ali, vivia pelos botecos, conhecia tudo, fazia toda a via-sacra. Aquilo era tudo comigo. E o cara virou tudo aquilo. Nossa Senhora! Naquele tempo acho que eu paguei 600 reais pro cara. Quebrou os vidros naquelas carrocinhas de alumínio. E eu com o sapato. Cheguei em casa com o sapato. E depois quando eu me mudei pra Passo Fundo em definitivo, eu levei todas as minhas coisas para o sítio em Butiá. E levei o sapato. Ele ficou uns 5 anos pendurado na minha biblioteca. Agora na última viagem que eu fui lá – eu já fui 4, 5 vezes com a Lurdes, minha atual mulher – e a Lurdes sempre invocada com o sapato. Aí ela disse “Tiburski, eu duvido que tu queime esse sapato”! E eu peguei, então, nessa última viagem, eu peguei e queimei o sapato.

Simbólico, hein?
Simbólico. Eu disse “Já que tu quer que eu queime, eu queimo”.

Bom, agora mudando de assunto, mas na verdade repassando um pouco do que tu já falou, o que, de fato, de fez cursar Jornalismo? O que te fez virar jornalista?
É assim, ó: eu já escrevia no jornal sem ter entrado no curso de Jornalismo. Aí começou a discussão de que teria que ter diploma. Isso é uma coisa muito antiga. E aí como eu era aluno da UFRGS, eu pedi reingresso e entrei no jornalismo. Mas eu fui fazendo a longo prazo, porque eu não tinha tempo, e eu trabalhava e tal. Não lembro quantos anos foram, mas levei tempo. Eu trabalhava e escrevia e com essa exigência nacional, e como era uma área que eu sempre praticava e escrevia, eu entrei pro jornalismo. Embora minha formação mesmo seja outra. Minha especialização é em Sociologia Cultura e Política da América Latina, pela UFRGS e Mestrado em Literatura, também pela UFRGS.

E o que tu pensas da qualidade do jornalismo atualmente?
Eu acho que ... (pensa) a qualidade é inferior em termos de idéias e textos (referindo-se à antigamente). Pela qualidade das universidades, pela Internet, que o aluno não lê mais, é leitura mínima, tudo ele vai buscar na Internet, já mastigado e digerido por alguém, então ele não lê, não reflete. E o jornalista é um articulador. E conhecimento é articulação. Quer dizer, não adianta saber uma coisa e não articular as duas. Na verdade a essência do jorn
alista é ser um articulista. Por isso que esse jornalismo informativo, burocrático, o que eu chamo, como o Barthes, de “escreventes”, aqueles caras que diariamente são obrigados a escrever alguma coisa, como quem trabalha em cartório, é ser burocrático. E o jornalismo hoje é uma ejaculação precoce. É ou não é? Tu pega lê o lead, por exemplo o Correio do Povo que tem lead, lead, lead. Mas o porquê? O grande problema do jornalismo atual é a falta da investigação, da interpretação e da opinião. E antigamente tinha crítica nos jornais, tinha polêmica – e hoje só tem laudação e louvação e puxação de saco e compadrismo, se tu escreve um livro que é uma bosta tu sempre encontra um jornalista ou alguém que vai falar bem, vai escrever na orelha... aliás como toda a cultura e a sociedade. Em termos de densidade e da pós-modernidade, “nada é sólido e tudo se desmancha no ar” (fazendo alusão ao livro de Marshall Bermann). Essa que é a verdade. Não há profundidade. E não há mais tempo também... são tantos os papéis e tantos os bares e tantas as festas que os alunos tem que ir... e tanto trago e tanta maconha e tanta coisa que na verdade não sobra muito tempo pra ler, né. Porque essa coisa de ficar...O Cassiano Del Ré (Professor da FAC) agora deletou 165 páginas de e-mail que me mandaram nesses três anos, e eu não li nenhum. Acho que posso entrar no Guinnes Book. Eu não sei quantos quilos dava de e-mail. Quando deletou o computador parecia que ia levitar (risos).

E essa história de chamar todo mundo de “ô Jacaré” veio com o teu amigo Sérgio Metz, né? Que tinha o apelido de Jacaré.
O Sérgio Metz (acende o cachimbo) e eu saíamos e íamos pro Bar do Beto (em Porto Alegre) e ficávamos conversa
ndo. Ele era músico do Tambo do Bando e compositor e fez uma bela novela que eu fiz a revisão chamada “Assim na Terra”. Ele trabalhava na Zero Hora e a gente se encontrava no antigo Bar do Beto que era mais famoso. Lá na Venâncio. Lá iam todos os intelectuais e políticos e estrangeiros... lá era o grande point em Porto Alegre. Falando de literatura e de jornalismo e tomando todas. E duas horas da manhã sempre ficavam as mulheres mais feias e mais velhas. E elas ficavam ali e começavam a nos olhar e mandar bilhetinhos. Até que um dia ele criou a famosa frase. Disse: “Tiburski, vamos embora porque a coisa é feia e vem se debruçando” (risos). Essa frase era do Jacaré. E daí que eu comecei a chamar as pessoas que eu gostava de “Jacaré”... “E daí Jacaré”, em homenagem ao Sérgio Metz. E aí ficou “jacaré”, “jacaré”, “jacaré”. E agora os meus dois barcos que eu criei vão se chamar de “Jacaré One” – o Luis Hoffman que está fazendo a arte – Se o Bush tem o “Força one”, então eu também posso ter o “jacaré one”. Vou colocar nos carros, nos dois barcos e na cabana. Em homenagem ao jacaré.

Quanto tu começou o teu amor incondicional pelo álcool?
Começou no que eu contei no início da entrevista. Quando eu te disse que minha vó botava o café preto com graspa. Só que mais tarde eu comecei a alterar, menos café e mais graspa. No final era graspa com um pouquinho de café. E depois nos dias de inverno e nos dias de chuva, o meu avô tinha uns porões enormes (...), feitos de madeira, e tinham aquelas pipas enormes, de 6, 7 metros de altura...e queijos e salames...

E tu se deitava lá e mandava ver...
Sim tinha muito queijo e salame pendurado. E aí nos dias de frio tinha os pelegos, eu botava debaixo da pipa, pegava um pedaço de queijo e de salame e deitava lá e abria a torneirinha direto (risos). Aí que começou tudo. E não existe polonês que não goste.

E hoje, o que tu gosta de fazer, em termos de diversão?
Hoje eu sou um cara que vivo num mosteiro. Eu vivo, de lazer, no Capingüi (lugar paradisíaco de Passo Fundo, com muitas barracas feitas de lona). Vou na sexta e volto no domingo. E tô vendendo minhas terras em Butiá, e vou comprar aqui, e quero me aposentar, trabalhar até os 60 e voltar pro campo onde eu nasci, onde eu tive meus melhores momentos... e tenho terras e cavalos hà 40 anos. E vo
u voltar porque eu só tenho uma vida e não vou gastá-la aqui. Isso é uma decisão de qualidade de vida. E foi uma descoberta de um paraíso dentro do inferno. Porque o Brasil é um inferno e o Capingüi um paraíso. Gosto de velejar, remar, pescar - mas não sou pescador assim de ficar (tempo demais atrás da “pescaria”) – eu gosto de armar os molinetes, e beber muito, falar com os amigos, churrasquerar.

E pra terminar, o filme, o disco e o livro da tua vida.
O disco é o do Bob Dylan, que tem Blow in the Wind... “A resposta está no vento”.... O livro é Dom Quixote e a Bíblia. Eu não leio a Bíblia, mas já li bastante. Só católico mas só entro na igreja quando tá chovendo muito e a porta tá aberta. Mas o livro é sem dúvida Dom Quixote. Na verdade a gente tem que aprender a ler cada vez menos e reler alguns livros. Reler, reler, reler. Ir mergulhando num lugar só. E o filme vou falar um dos últimos que me impressionou e que eu ganhei por fumar um cigarro atrás do outro...
ganhei do Eduardo Wanmacher, que é “O homem que não estava lá”. Esse filme é fantástico. O diálogo e a fotografia é fantástica. E tem sempre dois momentos que eu cito, uma é “um dia todos vão ao barbeiro”. E a outra é “Eu não falo muito, eu sou apenas o barbeiro” (O Tiba conta que o Dudu Wanmacher sempre chegava “recitando” o trecho do filme em inglês). De uma simplicidade e de uma sabedoria, é pra matar. Foram muitos filmes, mas esse é um filme que me marca atualmente.

Entrevista: Roberta Scheibe
Fotos: Cláudio Tavares


22 comentários:

Carolina Carvalho disse...

“Tiburski, vamos embora porque a coisa é feia e vem se debruçando”.
Hahahaha... bem coisa que se diga pro Tiba mesmo. Esse véio é dos fortes! Grandes histórias...

Pablo Tavares disse...

A pergunta que fica é: quantos filmes todas estas histórias rendem? Sinto muito, não cabem em um filme só...

Que Chuck Norris que nada! O cara é o Tiba. O Homem, o mito, a lenda...

Leandro Malósi Dóro disse...

Robes, você é o máximo e Tiba um semideus. Nunca vi entrevista desbocada produzida e publicada em Passo Fundo depois de Tarso de Castro. Até aconteciam, mas eram devidamente cortadas antes de sair. A exceção foi uma vez que o Ziraldo, bêbado, deu entrevista ao vivo, na rádio, para o Veronês. Grande guria.

Gabriela disse...

Grande Tiba!!
Esse sim!!!

Tá muito massa o texto Robes!!

Será que café com graspa é bom??
hahahahaahahaha

nate disse...

.

robes:

baita entrevista com o mestre.[coisa, aliás, que eu morria de vontade de fazer enquanto ainda habitava a fáque].

e baita blógue.

[acho que o baita é eloqüente o bastante].

tua prosa é maravilhosa!

________________

Pedro Klein disse...

Uhu!

Vida longa ao Tiba e suas histórias!

Anônimo disse...

Roberta, quero supor que o entrevistado tenha parentesco
com Evaldo Tiburski, natural de Erechim, que morou em Porto Alegre e com quem mantive amizade.
Podes confirmar isto com ele?
Meu email é contato@videverso.com
Paulo Baptista
Pelotas-RS

Thiago disse...

Roberta, querida colega; Tiba, grande professor!
Muito boa a entrevista, o texto, as estórias....
Deu saudades da época da faculdade, quando convivíamos todos os dias e podíamos sentar e bater aquele papo.
Tiba: saibas que foi um dos melhores mestres durante minha passagem pela facul
Roberta: tu vai longe guria! hehe
Beijos e abraços,
Thiago Toscani

GARRAS disse...

O Dóro disse tudo: o Tiba é um semideus. Mestre! Mestre!
Puta entrevista!

mig disse...

o tiba é pai do tibinha, o evaldo. grande entrevista. he, he,

Evaldo Tiburski disse...

O véio é fogo mesmo. O índio é taura e não se achica. Bela entrevista. Saudades...

Anônimo disse...

João Carlos: É muita emoção "ouvir" novamente tua história, ou estória?
Abraço Nica

Anônimo disse...

Esta entrevista está recheada de fantasias... O Tiburski é um homem muito forte pra cortar mato, mas me perguntem de sua força quando a Niza o abandonou, ela que é a única pessoa que sabe a "verdadeira" história, e quem é o Tiburski de verdade, frágil e humano, travestido de monstro ...
Um abraço

Anônimo disse...

O Sonho do Tiburski era escrever um romance chamado Dom Solidão, mas, por força das circunstâncias tornou-se ele próprio o "Solidão Júnior", pergunte a ele esta história...

Anônimo disse...

Quanto mais medito sobre a capacidade que temos de nos enganar, mais se me esvai, por entre os dedos lassos, a areia fina das certezas desfeitas...Boa aposentadoria!

Anônimo disse...

Pelo que me lembro, João Carlos estudou na Unisinos. Fomos colegas. Outra coisa que achei lamentável foi o português da entrevistadora.

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado

Anônimo disse...

O ser humano se sente impelido a inventar sobre si mesmo qdo percebe que se tornou uma fraude ou qdo percebe a sua insignificância? Não, Tiba, felizmente tu não me impediste de crescer. A única coisa de que faço questão de me lembrar é de qdo me disseste pausadamente: Tu és mais forte que eu. A pinga às vezes te deixava mais lúcido.

Charles Chaar disse...

Arri diacho!

ANDRESSA COLLET disse...

Encontrei a entrevista numa busca incansável pelas lembranças do Tiba, agora, com a sua ausência... Ler sobre a sua adolescência em Erechim, também a minha cidade, culminando com a sua visão de jornalismo feito por escreventes fez-me voltar às escadarias da FAC e às mesas de bar do Boka. Obrigada!

Andressa Collet,
Roma, Itália

Anônimo disse...

Eu conheço o João prático da Vacaria, como filha do Sesóstris. Acompanhei de perto a narrativa que ele fez e sobretudo relembro da existencia dos dois Joãos, o prático e o gramático. Queria saber mais da biblioteca do meu pai e avô, ambos falecidos.
Um abraço, Maria Ivone

Anônimo disse...

Eu conheço o João prático da Vacaria, como filha do Sesóstris. Acompanhei de perto a narrativa que ele fez e sobretudo relembro da existencia dos dois Joãos, o prático e o gramático. Queria saber mais da biblioteca do meu pai e avô, ambos falecidos.
Um abraço, Maria Ivone